14.5.07

Tudo bem, ele pode demorar

Luis Fernando Verissimo conta seu processo de criação

As negociações para esta entrevista foram incessantes. Elas começaram no início de 2003. Dois meses de tentativas por e-mail para conversar com o personagem principal de minha monografia de conclusão do curso de Jornalismo intitulada “As crônicas de Luis Fernando Verissimo”, cujo livro trabalhado foi Comédias da Vida Privada. Logo, esta entrevista tem mais de quatro anos e só foi publicada no referido trabalho. Depois da graduação e até do meu Mestrado, enfim chegou a hora de mostrar esta curta conversa aqui no Blog SantaSaliência.

As minhas tratativas com o autor começaram assim: “Oi Luis, tudo bem? Estou escrevendo minha monografia e quero baseá-la nas tuas crônicas...”. Continuei o blá blá blá digital até a derradeira frase: “Tu me concedes uma entrevista?” Na primeira tentativa a resposta veio uma semana depois: “Cara Roberta. Pode mandar as perguntas. Assim que eu tiver um tempo as respondo”. Talvez pelo volume de trabalho ou pela preguiça de um eterno desorganizado – como ele mesmo se define; as perguntas foram aparecer na minha caixa de mensagens três meses depois do primeiro e-mail. Vários outros foram enviados por mim sempre tentando manter-me profissional, embora em alguns casos meus dedos queriam escrever “te adoro!!!” “Você é meu cronista preferido, imaculado, me curvo aos seus pés!!! Mas por favor, responda esta entrevista!”. Mas não. Mantive-me séria e profissional. O máximo que ousei escrever foi um íntimo “Oi, Luis”, de letra arial 12, que disfarçava toda a minha admiração.

Nesta entrevista, Verissimo fala sobre seu processo de criação e a pressão de entregar um texto diário para os jornais. Deixou a impressão de ser um tanto quanto tortuosa a sua vida de cronista, e mostrou por que é autor da crônica genial “A Frase”, aquela do “o uísque dos uísques”.

P - Como é o processo de criação de suas crônicas?
R –
Depende de muita coisa. Se há tempo para pensar e escrever, se você dormiu bem, se há um assunto quicando ou você precisa bolar um, etc. Eu normalmente só decido o que vou fazer quando me sento na frente do computador mas é claro que a gente está sempre pensando no que vai escrever, mesmo quando não se dá conta.

P - A crônica é fiel aos fatos reais?
R –
Quase sempre o fato real é apenas o ponto de partida da crônica, que portanto não precisa ser fiel como uma reportagem. E às vezes a origem da crônica é fato nenhum.

P - Suas crônicas geralmente falam do cotidiano. De onde brotam as idéias? Do próprio dia-a-dia? Como isto funciona?
R – São histórias que a gente ouve, ou que acontecem com a gente mesmo. Às vezes só uma frase ouvida de passagem pode detonar um processo que termina numa história pronta. Outra vez há um assunto em evidencia que você quase se obriga a comentar. Quem escreve sobre qualquer coisa e dá palpite sobre tudo, claro, tem esta liberdade, de variar o assunto e até o estilo conforme a sua disposição.

P - A influência de algum autor nobre e admirado é inevitável para a formação da característica textual de um cronista. Até desenvolver o seu estilo, você se inspirou em qual autor?
R – Nos cronistas brasileiros, principalmente Antônio Maria, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga.

P - Na sua opinião, uma grande crônica é imortalizada, como um grande romance, ou ela acaba degenerada pelo tempo?
R –
O trabalho jornalístico normalmente é efêmero, pois suas referências são factuais e passageiras, mas algumas crônicas têm um apelo mais universal e são escritas para ficar. Nem sempre ficam mas pelo menos são as que acabam em livro.

P - Como você compõe os seus personagens? Eles são baseados na auto-análise, ou na observação de “tipos” do cotidiano?
R –
Entra tudo, nossa experiência pessoal, a observação dos outros. E muitas vezes são pura invenção, ou delírio.

P - Você acredita que a crônica é um gênero intermediário entre a literatura e o jornalismo? Ela é um gênero híbrido?
R –
É um gênero híbrido. Às vezes é jornalismo literário, às vezes é literatura jornalística, depende da dosagem dos ingredientes da receita. Mas é sempre um jornalismo especial, personalizado, eqüidistante do artigo e da reportagem.

P - A objetividade do jornalismo ajuda ou atrapalha na redação de uma crônica? Você se preocupa com isso quando escreve?
R – Acho que se espera do cronista que ele seja subjetivo. É a sua subjetividade que as pessoas procuram, o resto do jornal é que deve ser objetivo. E, claro, raramente é. Mas o cronista é pago para dar a sua visão pessoal. Sem distorcer a realidade, obviamente. Ou só a distorcendo para efeito literário, quando é o caso.

P - Na sua opinião, quais as características de suas crônicas são voltadas ao jornalismo, e quais a literatura?
R – É difícil separar as mais ou menos jornalísticas e as mais ou menos literárias. Depende do assunto, do tempo para elaborá-las, da disposição do momento. Não fiz esta estatística.

P - Como é o seu processo de produção? Você escreve preso ao horário, como os jornalistas?
R – Eu sempre digo que a minha musa é o prazo de entrega. Ela impõe uma certa rotina de trabalho, mesmo num desorganizado como eu.

P - ‘Em cartas a um jovem poeta’, Rainer-Maria Rilke escreveu: “Confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?” E você, morreria se lhe proibissem de escrever?
R –
Não. Eu acho que daria graças a Deus. Que obviamente não é o mesmo Deus do Rilke.



Fotos: divulgação.

3 comentários:

zealfredo disse...

Bem legal!

Anônimo disse...

Robes! Tu é o ponto de exclamação!!!!
Fabizinha

Leandro Malósi Dóro disse...

Robes, tu és do caralhowky