26.7.07

Eis mais um dos Grand colunistas deste singelo e harmonioso blog: Sr. Madrugada Pedro Guterres Klein, um passo-fundense radicado em Florianópolis. Leia e inebrie-se!


À Boa Sorte

Posso morrer a qualquer instante
Ser mais um número no levante,
O guia alfabético dos desesperados,
Dos infames.


Ando na rua, na parada do ônibus
Pelos prédios e pelos morros,
Com medo de um tiro:
Meu último suspiro.


De perder meu peito em meio ao aço
De virar da laranja, corada, do capitalismo,
O bagaço.
Ter a alma rasgada pelo asco.


Sentir na pele o momento
O atirador com total aperfeiçoamento:
Quem será? O governo?
O mercado de trabalho? Ou mesmo um atirador de elite
Da polícia de elite, do país que é um hit:
Nele muito se fala e canta, mas pouco se faz pra mudança!


Sou alvo de treino,
Pobre morro sem terreno,
De repente, como se não fosse gente,
Enterram-me sem carregar-me no inconsciente:
Números – meros parênteses.


Ando olhando para todos os lados,
Não paro nas esquinas,
Não converso com mulher
Que eu não conheça desde menina.
Juro que nunca toquei em cocaína!


A censura está voltando!
Deus está chegando!
- Traga rifles, meu Senhor

Ele não está escutando...


E pela milésima vez estou falando:
Homem, és independente, forte, valente,
Criou tudo isso, até mesmo tua morte.
Que te importa a divindade? Que por ti nada fez.
Que em algum dia, talvez, mostrou-se pra ti,
Na forma de um guri, pedindo um qualquer.
- Senhor, eu não te vi!
Só se vê o que se quer...


O tiro veio dessa selva.
Se esta noite a Philip Morris não me chamar,
A Skol amanhã me leva,
E se ninguém me quiser, hei de ter uma mulher,
Um violão e um chinelo de tiras – que a cadelinha sempre morde,
Antes que eu acorde
Do meu sonho banal, e me atire,
Num único acorde, a despeito da morte
Pro meu único norte:
A boa sorte!


A que me basta
Que sempre me levou
Que é casta
Que nunca se deitou


Com homem nem mulher,
Nem com outro bicho qualquer.
Sem sombras no passado,
Sem dores de amor.


À Boa Sorte!
À Boa Sorte!
Porque brasileiro como eu,
Nada teme, nem a morte.


Morrer é continuar vivo
Nesse paraíso desmentido,
A vastidão de verde cinza:
Concretos, às vezes são cortinas.


Adeus, amigos!
“Gravemente ferido, foi levado com por sério motivo,
o Sr. Pedro Klein, com um tiro.
Ele está internado no IML, ninguém o visita,
Sua esposa hoje chora, e processa a polícia.”


E de repente a multidão invade o Instituto,
Aquele lugar de efêmero luto,
E pergunta?

- Vendem charutos?

- Não!

- Nem mesmo os da promoção?

- Promoção?

- Do comercial, da televisão...

- Não!

- Vamos pessoal! Aqui também não!


E lá se foi a multidão, sem verem o que tampa minha visão.
Põem-me de negro em um caixão.
À bala que agora é mais forte!
À Boa Sorte!

3 comentários:

Roberta Scheibe disse...

Pedro! Grande poema. Me fez lembrar daquela frase do talentoso Tarso de Castro: "Se Deus vier, que venha armado!".

Obrigada pelo texto.

Clébio disse...

Do caralho.
E a rede globo faz sensacionalismo com o acidente da TAM!

Anônimo disse...

Parabens pelo poema!!
Muito bom!!


Gabriela