31.10.06

Repeteco: Bigode Elétrico - a banda

Era uma vez uma gata que se chamava Lisa. Ela era branquinha, com alguns pretinhos espalhados pelo pêlo. Cinza. Classe. Olhos azuis. Negros na noite. Um certo dia...

- Eu tinha sete meses. Desde pequeninha odiei três pessoas na minha vida: O Lasier Martins, o Jô Soares e o Faustão. Também acho o Jornal Nacional ridículo. Então, por estar “estressada com a mídia”, resolvi passear do lado de fora da janela de casa.

Lisa, com seu super plano, saiu de fininho da sala, onde duas criaturas permaneciam babando na frente da televisão. Saiu de leve, como quem sai pra matar um rango. De repente, passou pela cozinha (viu que tudo estava calmo – e fechado) e rumou para o quarto. Entrou. Sorrateiramente. Não resistiu e espichou a patinha para empurrar a bolinha de papel. Correu um pouquinho atrás da bolinha e cansou.

- Essa vida de gata sem útero é foda. Engorda pra caralho. Pelo menos fico gostosa.

Depois de ignorar com hierarquia a minimalista bolinha, ela rumou para o seu bote. Subiu na cama, pulou para a janela e enfiou a cabeça para fora. Olhou para um lado. Nada. Olhou para outro. Livre. Botou o corpo para fora:

- É agora!

E saiu. Foi desfilar no parapeito (do lado de fora) da janela. Passeou até o fim. Desfilando. Os vizinhos apavorados. As donas, ainda, na sala. Agora não babavam mais na tv, mas na Internet.

- Tã nã nã, tã nã!!! Lisa contra a baixo astral!!! Enganando os trouxas do planeta!!

(Nota: Lisa também atende pelo codinome “

Lisete Müller”, Lisetão, Lisão e meigamente Lisinha).

Lisete pendurou-se no parapeito, foi até o finzinho, virou-se, dando uma bela abanada com o rabo, a muitos metros de distância do chão. E retornou ao ponto de saída. Entrou. Foi até a cozinha. Comeu fazendo rãrãrãrã... ou ronronando para os sem imaginação.

Deu meia volta e subiu em cima da mesa. Pulou para a pia. Tomou água da pia.

- Não tem nada melhor que tomar água da pia. Parece água da chuva, ou cachoeira, dependendo da sua viagem. Mas é bom. Água nova. Não é aquela que deixam mofando no nosso potinho.

Depois de saborear uma água, Lisão, outra variável de seu nome, pulou para o fogão, lambeu um restinho de comida e deu um super-extra-master pulo. Chegou até o canto final da geladeira. Para chegar até a frente, seus 2,5 quilos atrapalharam um pouco. Derrubou um remédio, uma maçã e um copinho de plástico que estavam em cima da geladeira. Parou bem em cima da porta. Quando uma das donas foi até a geladeira buscar um bolo...

- Lisa, eu não acredito! Como tá fazendo isso??? Já não te expliquei??? Hein, Lisa! Vem aqui!

A dona pega Lisetão e coloca no chão. Dá uma encostada na bunda, simulando uma palmada!

- Não é mais pra fazer isso! Já falei!

Lisa dá de ombros, vai perto da bolinha, e espicha a patinha para chutá-la.

* * *


Enquanto a dona da gata voltou para a sala ler o Hollywood do Bukowski, Lisão foi até o quarto e pegou um celular. Resolveu ligar para os seus amigos gatos.

- Alô, Heloísa Helena, blz? Tranqüilo. O ensaio pode ser hoje aqui em casa, né??

- Deixa eu ver o que a Mafalda acha. Só um pouco. (Heloísa Helena cochicha com sua irmã Mafalda. As duas são gatas amigonas da Lisa). – Lisão??? Pode ser. Falou com a Nico, o Iggy, a Maria e o Demian??? (esses outros gatos também são amigos delas).

- Não, liga você...

- Tô sem crédito.

- Ai, que saliência... Eu ligo. Falou então. Até às 20 horas.

Lisa ligou para o Demian (que estava dormindo, pra variar) e foi na janela assobiar para a Nico e seus “Velvets”.

- Miaaaaaau!

(Nico coloca a cabeça pra fora e bate um papo).

- Dae. Vamos ensaiar??

- Era isso que eu queria falar. Avisa a galera. Às 20h aqui em casa.

(ao fundo Lisa escuta um solo do Iggy). Lisa pergunta:

- Ele ainda tá cantando assim?

- Aham. Não tem jeito, né.

- Não, esse Iggy não.

Nesse momento, a Maria, a outra gata, quebra um copo quase na cabeça do Iggão, o gato simpático.

Enquanto o tempo passa, lisa vai para a sala, encosta a cabeça nos pés da dona e faz um auto-carinho. Depois dorme na cadeira do computador. Mais tarde, acorda com o interfone. Não é a sua galera. Ao contrário. Eram “terceiros”, os amigos da dona. Eles entram, fazem uma zona, fumam, deixam a casa fedendo, falam alto, derrubam coca no chão, enfim, são salientes.

A brincadeira da hora da Lisa era acompanhar quem ia ao banheiro. Ela entrava junto e ia para a pia. Pedia água. Tomava até ter soluço e molhava todos os pelinhos da cara. A pessoa saia e ela ia deitar no carpete. Depois variava, ia deleitar-se com a galera.

- Vou lá incomodar o Guines... meu amigo. Ele não é gato. É uma pessoa de verdade. Ele adora brincar violentamente comigo. Sempre quer enfiar a mão embaixo do meu queixo. E eu não deixo (até rimou. Vou ser poeta. Hai-cai.). Quer dizer, tento brincar com o Guines. Quase sempre perco. Daí eu saio, dou uma volta e começo a brincadeira de novo.

Nisso tá o Guines e a Lisa no maior entreveiro (para citar uma palavra em homenagem ao Ataliba, amigão da Lisa e que também não é gato).

Toca o interfone gatístico. A Lisa atende e ninguém (da espécie “gente”) ouve. Eram os seus amigos. Na verdade, a formação original da banda “Bigode Elétrico”. Som rockão. A Lisa na bateria, o Demian nos teclados, a Mafalda na guitarra solo, a Heloísa Helena na guitarra base, Maria no baixo, e a Nico e o Iggy no vocal. Grande “Bigode Elétrico”.

A música atual ensaiada é I wanna be sedated, dos Ramones. Tem até um clipe. A Lisa batendo, a Mafalda fazendo um puta som e o vocal matando a pau: “Twenty-twenty-twenty four hours to go I wanna be sedated/ Nothin' to do and no where to go-o-oh I wanna be sedated”! Pá rá rá rá. Sonzaço.

Depois de tocarem I wanna be sedated rolou Taxman, dos Beatles, o preferido da galera, e Sweet Jane, dos Velvet Underground. Tudo bem, essa é clássica de qualquer banda. Não faltaria na “Bigode Elétrico”.

E no mais é isso. O ensaio da banda rendeu uivos na vizinhança, 3 copos quebrados, o “incensário” no chão, com todas as cinzas, goles de coca-cola grudando no carpete do apartamento e pelos voando pela casa.

Após despedir-se dos seus amigos, Lisa foi comer e dar uma cagada. O jornal que ficava embaixo da caixinha de areia era o Zero Hora, cuja notícia impressa assim se apresentava: “LEI ANTIFUMO É CONFUSA ATÉ PARA QUEM A VOTOU”. Depois deitou-se no sofá e ficou se lambendo. Aí dormiu recebendo carinho e fazendo rã rã rã.

2 comentários:

Mari disse...

Essa banda é do caralhooooo!
É verdade que vai virar livro????

Roberta Scheibe disse...

É verdade sim! O Dóro tá ilustrando! Até ano que vem está por aí!