31.10.06

Crítica: Minha vida mudou em dois dias


O mundo era pó e ao pó voltaria.

John Fante


Depois de anos, o tão falado livro “Pergunte ao Pó” caiu na minha mão. Caiu, não. Eu finalmente encontrei em uma livraria. Li e tudo na minha vida mudou.

Abri o livro, em sua 6ª edição, lançado neste ano pela soberba José Olympio editora, e de cara leio o prefácio assinado pelo mestre Charles Bukowski. As primeiras frases são exatamente assim: “Eu era jovem, passando fome, bêbado e tentando ser escritor. Fazia a maior parte das minhas leituras na Biblioteca Pública de Los Angeles, no centro da cidade, e nada do que eu lia tinha a ver comigo ou com as ruas ou com as pessoas que me cercavam. [...] Então, um dia, puxei um livro e o abri, e lá estava”.

Comecei a ler vorazmente o que Bukowski chamou de “ouro no lixo”. “Pergunte ao pó” não deixa de ser biográfico: fala de Arturo Bandini, alter ego de Fante que sonha em ser escritor. Talvez venha daí o Henry Chinaski do Bukowski. No entanto, Bandini é um alter ego absolutamente complicado e inseguro. Chega a fazer com que seus leitores, como eu, quase percam a compostura. A leitura dá agonia. Bandini sonha. Delira acordado. Olha os lugares e almeja o sucesso e as conseqüências do reconhecimento de ser um escritor famoso. Como ele escreve logo no início do livro:

“Aí um montão de tempo se passou quando parei diante da vitrine de uma tabacaria e fiquei olhando, e o mundo inteiro se apagou exceto aquela vitrine, e fiquei ali e fumei todos os cachimbos e me vi como um grande autor com aquele alinhado italiano de urze-branca e uma bengala desembarcando de um grande carro preto e ela estava lá também, orgulhosa como o diabo de mim, a dama da pele de raposa-prateada. Nos registramos no hotel, tomamos coquetéis e dançamos um pouco, tomamos outro coquetel e recitei alguns versos do sânscrito, e o mundo era tão maravilhoso porque a cada dois minutos uma deslumbrante olhava para mim, o grande autor, e eu não podia deixar de autografar o seu menu, e a garota da raposa-prateada ficava morrendo de ciúmes” (p.13).

Confesso que nas primeiras páginas, minha opinião “sensitiva”, digamos, variava. Eu não sabia se estava gostando ou não do livro. Até que, num determinado momento, Arturo Bandini, que só havia publicado o conto “O cachorrinho riu”, encontra Camilla. Uma garçonete maluquinha e de sapatos velhos. E aí toda a minha concepção de mundo mudou. Fante, através de Arturo Bandini, consegue ferir as pessoas. E fere justamente porque somos iguais. Bandini passa fome, é um cara triste. Não sabe o que quer. Tem medo. Uma prostituta o interpela, ele dá todo o dinheiro dele e vai embora. Não consegue dizer não e pegar o dinheiro. Ou pagar e “aproveitar”. Bandini é inseguro. Sonha com a coragem e o sucesso. E não quase nenhum. Pensa em Camilla e quando a encontra, deixa tudo correr por entre os dedos.

Fante mete o dedo, praticamente o braço inteiro, na ferida: as pessoas, a humanidade, todos são inseguros e brincam de “confiança”. Ter medo de morrer sozinho, de fracassar na profissão, de não alcançar os sonhos, de morrer de uma doença ridícula, de ter que voltar pra casa com o rabo entre as pernas. A civilização corrói. E as pessoas fingem que isso não dói.

No livro, de narrativa informal, porém extremamente direta, com frases longas, mas belissimamente “virguladas”, Fante descarrila crítica social e inquietação. “Pergunte ao pó” mostra uma luta ardente, mas definitivamente indecisa, pela felicidade. Fala de sonhos e de frustrações. Fala de Arturo que ama Camilla que ama Sammy. E deu, senão vou contar o livro inteiro.

John Fante tem uma grande obra: escreveu muitos contos, roteiros de cinema e livros. No Brasil foram publicados: “Dago Red”, “Espere a primavera, Bandini”, “Pergunte ao pó”, “Sonhos de Bunker Hill”, “1933 foi um ano ruim”, “Caminhos de Los Angeles”, “A oeste de Roma” e “Caminhos da juventude”. E agora vai sair um filme sobre o livro.

Aconselho a devorar o livro, porque, pra mim, o mundo caiu em dois dias.

Um comentário:

João disse...

Massa esse texto!