3.3.08

Crônica

Eu e o homem das “Comédias da vida privada”

Sábado passado entrevistei meu ídolo: Luis Fernando Verissimo. O autor esteve em Passo Fundo não para escrever nem palestrar (sic!), mas para tocar. Pra quem não sabe, Verissimo enche suas bochechinhas de ar e toca sax como ninguém. Ele fez um show com o seu grupo Jazz 6 no mesmo dia, à noite, no Teatro do Sesc. À tardinha, eu e meu colega da Beterraba Filmes fomos entrevistá-lo para um DVD de música que estamos produzindo. E eis que tudo aconteceu.

Quando chegamos ao hotel em que meu ídolo máximo se hospedaria (porque ele ainda não tinha chegado de Porto Alegre), eu já estava pra lá de Bagdá, vinda de um almoço (almocei 15h30min) com umas duas cervejas na cabeça. Pra mim, duas cervejas na cabeça são um verdadeiro desastre. Pois cheguei e tomei todos os cafés do hotel esperando o “Luis”. Ficamos conversando com outros jornalistas, que também esperavam o cara. Quando ele chegou meu coração gelou:

- Meu Deus, o Luis!

Ele entra. Tímido, como sempre. Camisa azul, calça marrom e sapato marrom sem meia. Cumprimentou um por um. Quando chegou até mim, alguém apresentou:

- Luis Fernando, esta é a jornalista Roberta Scheibe!

E eu que uma vez, ainda estudante, enviei um e-mail a ele - para minha monografia sobre a obra Comédias da vida privada” - chamando-o de “oi Luis”, e ele me respondeu como “prezada Roberta”, lembrei-me de imediato o quanto esse cara, por incrível que pareça, tem uma educação formal. E larguei:

- Tudo bom Verissimo?!

Ele balbuciou qualquer coisa que nem me preocupei em entender.

O autor do “Chivas Regal dos Whiskys” sentou na cadeira do entrevistado. No meio jornalístico Verissimo é conhecido por falar muito pouco, o que significa um problema para nós, jornalistas. No exato momento em que o autor sentou em sua cadeira Taís Rizzotto, que faria a entrevista primeiro, disse:

- Nós vamos bater um papo, vou te perguntar sobre a sua vida, e você pode falar sobre os fatos que quiser...

Eis que ele disse algo como:

- Eu não vou querer.

Isto, senhores, não representa uma grosseria, e sim uma timidez sem tamanho. A Taís só me deu uma olhadinha. Eu pensei: “Ai senhor, na minha vez ele vai estar louco da vida”! Imaginei o quanto seria difícil para o homem dar entrevista com quatro pessoas assistindo. A estas alturas, eu fiquei responsável de ajudar a Taís Rizzotto fazendo sinal, com as mãos, sobre o tempo que se passava na entrevista. Para desespero da jornalista e alívio do cronista, a cada cinco minutos eu levantava os cinco dedos no ar avisando que o tempo passava, e tanto a apresentadora quanto o meu ídolo me olhavam com o rabo dos olhos.

Quando chegou minha vez de entrevistá-lo, enquanto o cinegrafista arrumava a câmera, fui conversar com o escritor. Expliquei como seria o trabalho e que eu teria apenas três perguntas para lhe fazer, especificamente sobre um novo cantor de MPB. Ele disse que sim. Eu disse-lhe quais seriam as perguntas:

- Estas são as perguntas, mas na hora da gravação eu lhe pergunto e você responde uma por uma – expliquei. Ele fez um sinal de “sim” bem querido.

Na hora da gravação ele respondeu as três perguntas juntas em três frases. Eu refiz as perguntas e formulei algumas novas, na esperança de que a timidez dele o abandonasse um pouco e o deixasse formular falas tão boas quanto as frases escritas. Mas isso é um detalhe que não tem remédio, ele mesmo já escreveu que a pessoa que escreve parece outra da que fala.

Quando enfim terminei as perguntas, ele soltou um suspiro e disse:

- Pronto?

- Pronto, Verissimo!

Prontamente seu microfone de lapela foi retirado, ele cumprimentou singelamente a todos e saiu para descansar. Nós ficamos fofoqueando sobre a sua timidez e eu falei umas mil vezes (incluindo ida e volta da entrevista, dentro do carro) que o cara é meu ídolo. O bom, pelo menos, é que me fiz de difícil na frente dele: O meu “Tudo bom Verissimo?!” escondia, na verdade um “Eu te amo!!! Você é a luz de minha existência! O cronista que mais fez parte de minha vida”! Mas consegui disfarçar legal. E passei a entrevista inteira olhando da cara para os sapatos sem meia de meu ídolo.

3 comentários:

Bibiana Friderichs disse...

agora tu já pode dizer que "o veríssimo te fez feliz certo dia"... risos... risos... te curto mais do que curto ele! a propósito: voltei... hehehehe

Luis Henrique Boaventura disse...

Haha, o Veríssimo é figuraça. Nunca mais vou esquecer uma entrevista que ele deu no Programa do Jô (há uns três ou quatro anos...) em que ele simplesmente não falava. O Jô teve que arrancar um cara da primeira fila pra responder as perguntas por ele.

Thiago Q. disse...

Uau!

Eu faria o mesmo...
Do jeito que sou cagão...
Capaz d'eu travar-me todo ali e só conseguir balbuciar um "i love you" bem tímido e nervoso.

Po, ele é o autor da "frase, aquela.
Você quer dizer.... A frase?
A frase"