26.6.07

Conhecer, provocar e produzir coisas novas”!

* Entrevista e fotos: Roberta Scheibe

A entrevista que marquei com a professora e pesquisadora da Faculdade de Artes e Comunicação da UPF, Graciela René Ormezzano, foi marcada e desmarcada. Primeiro a Graciela foi chamada para ir a Marau. Depois marcamos para um feriado e não nos damos conta. Por fim, no dia marcado, cheguei um pouco antes da minha entrevistada. Pensei que eu estava atrasada, mas relaxei quando vi a pesquisadora entrando na sua sala com uma cara de feliz. Pedi para que nossa entrevista atrasasse porque a coordenadora do curso de Jornalismo da FAC havia me chamado para que conseguíssemos resolver uma “tarefa” de um curso que nós estamos fazendo. No entanto, enquanto eu e a Sônia nos embrenhávamos em números, a professora Graciela acessou seus e-mails. De repente, do nada, escutei um “yes!!!!”. Era a Graciela. Como ela é uma argentina radicada no Brasil, o “yes” foi, na verdade, “yês”. Pedi “o que foi Graciela?”. Ela me respondeu: “Meu artigo foi selecionado para participar de ‘un’ congresso na Colômbia!”... “Meu Deus, Graciela, com tudo pago?”, “si, mas só a inscrição do curso”. Depois disso falei milhares de vezes a palavra “parabéns” enquanto ela, com os dedos das duas mãos, improvisava uma dancinha. Não sei se Argentina ou algo que o valha. Alguns minutos depois, o diretor da Faculdade de Artes e Comunicação César Augusto dos Santos chegou até a sala dela. Eu disse “César, já sabe da novidade? A Graciela vai para a Colômbia”. Do alto da personalidade do diretor, ele olhou para a Graciela, já meio rindo e disse: “Mas de novo, professora?” Eis que veio a resposta: “Como de novo? Como de novo se eu nunca fui pra Colômbia?”.

Eu tentava, em vão, concentrar-me nos números da minha tarefa. Então a Graciela levantou, foi até o telefone, e o que eu e a professora Sônia ouvimos (e começamos a rir) foi o seguinte:

- Alô?? Por favor a Fulana de Tal? Oi, Fulana, tudo bem? É a Graciela da FAC. Gostaria de saber como está o orçamento de ajuda de custo (para a passagem) que eu encaminhei para ir no congresso internacional.... ‘si’... hum... ‘no’, é que eu preciso saber se saiu, porque o meu artigo foi aprovado para um congresso na Colômbia...e eu tô indo!

Quando, enfim, conseguimos sentar num banco no meio de um gramado, com muitas árvores, num lugar lindo do Campus Central da UPF para tomarmos um café, mais um detalhe. O gol vermelho que a Graciela comprou havia chegado. Saiu ela a mil, e eu fiquei sentada esperando. “Estou muito atribulada nesta tarde”, me disse com o “sotacão” castelhano que eu adoro. “Será que é o carro Graciela?”, “’No’ sei...”... “É um de quatro portas?”... “quatro portas”... “Então vai lá que ele chegou. Mas há Graciela”. Ela saiu rindo, depois voltou, feliz, sentou no banco, cruzou as pernas. Eu reclamei do vento. Ela disse “Eu adoro o vento”. E, com os cabelos em rebeldia, concedeu esta entrevista para o blog Santa Saliência.


P – Atenção Graciela... Vamos lá! Você é uma grande pesquisadora e eu quero ser uma também (risos)... Então vou começar perguntando sobre isso. Qual a importância que você atribui à pesquisa, institucionalizada ou não, dentro do atual sistema de ensino brasileiro?

É algo que está crescendo paulatinamente. No entanto mais devagar do que deveria ser, principalmente em instituições particulares, porque as instituições públicas já possuem uma tradição em pesquisa, né? Então eu vejo assim: Não somente no ensino, considerando as Ciências da Educação, mas no geral, em qualquer profissão, a pesquisa deveria fazer parte de qualquer profissional no seu dia-a-dia. Eu não consigo entender, não somente um professor, mas um dentista, um médico, um advogado, um designer, um artista, qualquer profissional, não pode ter uma formação que desconsidere a ‘pequisa’. Por que o que é pesquisar? É sair em busca de novos conhecimentos e PRODUZIR novos conhecimentos. Como um profissional bom vai poder ter uma atuação que seja interessante, produzida, atualizada e que favoreça a sociedade como um todo sem este aspecto!?


P – Você acredita que há incentivo a quem faz ou gostaria de começar a fazer pesquisa no Brasil?

Eu acho que o incentivo é pouco. A tradição em pesquisa ainda não está consolidada no Brasil e o incentivo é ‘bastante pouco’. Porque hoje as instituições, independente delas serem particulares ou públicas, elas estão preocupadas com as questões orçamentárias. E nem sempre a pesquisa é vista como algo que dá um lucro. Porque a pesquisa PODE dar dinheiro, mas nem sempre dá. Muitas vezes ela dá um tipo de conhecimento que não é revertido em lucro, mas o que interessa a uma instituição de ensino que vai formar profissionais? Não teria que ser justamente algo que faça com que esses profissionais sejam PROFISSIONAIS PESQUISADORES enquanto estão na sua condição de acadêmicos e depois como futuros profissionais? Eu penso que sim, mas nem sempre se tem essa visão.

P – O que você considera “o melhor” e “o pior” dentro de uma carreira de pesquisador?

Eu sou uma apaixonada por conhecimento. Sou uma pessoa extremamente ‘curiôssa’, e eu vejo que toda a minha criatividade está muito voltada para descobrir coisas novas. Conhecer, provocar e produzir coisas novas que tenham alguma interferência cultural e social. Porque eu penso assim: fazer pesquisa para que fique na prateleira da biblioteca da universidade, ou na prateleira da tua casa – pior ainda! – isso não resolve! Pra mim tem que provocar alguma mudança e alguma transformação. Eu ainda sou aquela romântica que pretende fazer algo para mudar o mundo. Claro que não vou conseguir mudar o mundo! Mas o dia que eu vou morrer eu vou dizer que pelo menos fiz a minha parte! (risos) E isso me deixa tranqüila. Isso é o melhor: é a possibilidade que isso te dá de tu transformares algo e tu te transformares como pessoa, a medida que tu vais adquirindo conhecimento. E o pior, o que eu vejo de ruim na pesquisa, é o engessamento da academia. As pessoas, em alguns locais – graças a Deus eu não vivo isso aqui dentro da UPF – fazem patrulhamento ideológico. Se as pessoas não pensam de acordo com determinados medalhões, então essas pessoas são vitimadas de alguma forma. Esse tipo de segregação, de discriminação, de engessamento em algumas teorias, essa falta de amplidão de cabeça, isso que eu acho ruim. Outra coisa é a gente ter que prestar contas para muitos patrões. Aqui, por exemplo, nós somos avaliados pelos nossos colegas, que ficam fazendo um julgamento dos pesquisadores como se nós estivéssemos no limbo, cheios de status e cheios de gratificações especiais. E isso é um equívoco total e próprio de quem não tem a menor idéia do que é a pesquisa. Porque justamente nós não estamos em nenhum limbo! Nós somos os mais cobrados! Porque nós precisamos prestar contas para os nossos colegas do que nós estamos fazendo com as horas que nós ganhamos! Nós precisamos prestar contas para a vice-reitoria de pesquisa, nós somos avaliados anualmente. Para nós pertencermos ao quadro de professores pesquisadores nós precisamos ter uma produção determinada, e, além disso, nós somos avaliados pela CAPES, que também vai estar nos cobrando, para que nós estejamos com nossas produções de acordo com aquele esquema de pontuação Qualis de editoras, de eventos e de revistas. Então nós somos triplamente avaliados o tempo inteiro!

P – E cobrados!

E cobrados!! Porque assim: eu trabalho no Mestrado em Educação. E se eu não produzo, por exemplo, o que vai acontecer com meus colegas? Eu vou prejudicá-los, porque a produção deles vai ser dividida com a minha que não produzi! Então, ‘clâro’, obviamente eles vão me cobrar “e aí Graciela, o que tu estás fazendo esse ano que tu não produziste o que tu precisavas?” Então existe dentro dos mestrados um esquema de recredenciamento docente, pelo qual a gente tem que passar a cada 2, 3 anos, isso vai dependendo de cada grupo. E nesse recredenciamento eu também sou obrigada a me justificar perante os meus colegas de mestrado sobre aquilo que eu produzi, não produzi, ou deixei de produzir! Entende? E as pessoas pensam “ah, tu tens 16 horas, é mamata, está tudo numa boa!” Mas em 16 horas a gente não faz nada! E se não está com a bunda sentada aqui dentro da universidade...! Mas de repente tu estas na biblioteca, estás na tua casa lendo...

P – e não dá pra sair com um monte de livros pra tudo que é canto...

Porque tu não tens como andar carregando livros pra cima e pra baixo o tempo todo! Muitas vezes a biblioteca da instituição não possui a bibliografia que tu precisas, então a gente tem que andar com o carro cheio de livros pra cima e pra baixo. As condições de trabalho não são das melhores. Isso que é ruim: muitas cobranças de diversas instâncias, e as condições de trabalho que não são das melhores. Agora, eu acho que vale a pena pagar o preço de tudo isso. Mas pra isso tu tens que ter perfil! Tens que gostar do que tu estas fazendo! E eu sou apaixonada pelo que eu faço.

P – Quem, pra você, é um modelo de pesquisador no Brasil?

Ao longo da faculdade, quando a gente vai fazendo a graduação, a especialização, o mestrado e até o doutorado, tu vais tendo vários gurus. Eu diria que eu não tenho uma pessoa que eu poderia dizer ‘Fulano’ ou ‘Fulana’ são os meus modelos. Mas eu tive vários modelos que foram meus professores, e eu penso que de cada um deles eu tentei pegar aquilo que eu considerava bom, e que eu gostava, como professor. Ou seja, uma pessoa organizada, que quando chegasse a dar uma aula num curso de pós-graduação chegasse a ter um plano de aula, com uma bibliografia consistente, que falasse para os alunos sobre essa bibliografia, sobre o que tratava cada um desses livros, quem eram esses autores, em que paradigmas esses autores estavam situados para a gente se situar também... Entende? Isso eu aprendi com Juan José Mourinho Mosquera, que foi meu orientador no doutorado na PUC em Porto Alegre, e eu vejo como uma pessoa com uma capacidade intelectual incrível. Uma outra orientadora que eu tive no mestrado, foi a Mirian Comiotto, que foi uma pessoa com quem eu aprendi a ser afetiva com meus alunos. Eu acho que isso é importante, porque uma boa relação entre orientador e orientando é fundamental! Eu tive sorte de ter excelente relação com essas duas pessoas. Mas eu vejo que muitos amigos ou colegas do mestrado e do doutorado muitas vezes saiam chorando da sala de seus orientadores. Porque era uma situação extremamente desconfortável, e as pessoas não se entendiam, falavam linguagens diferentes, e eu aprendi com ela (Mirian) que isso é fundamental. Quando eu entrei no mestrado eu tinha interesse de pesquisar sobre outro assunto. Mas eu tinha uma professora, a Lucinda, ela estava se aposentando. Era uma senhora de 70 anos, estava sendo jubilada na PUCRS. Então eu disse “professora, eu quero pedir um conselho pra senhora, já que tem muita experiência aqui dentro. Eu trouxe um projeto de pesquisa para uma linha, mas eu gostei da professora Mirian, que é de outra linha de pesquisa; o que a senhora me aconselha: pesquisar aquilo que eu tenho mais interesse, ou mudar de linha por causa da orientação”. E ela me disse: “muda de linha por causa da orientação”! Então com esses dois exemplos, um da Mirian, que é uma pessoa que tu podes falar de igual pra igual, e com a Lucinda, que me deu esse conselho, eu acho que isso me ensinou que um pesquisador precisa não só ser um professor que tenha um grande conhecimento, mas que também não pode se esquecer de ser humano.

P- Graciela, como você veio parar na Faculdade de Artes e Comunicação da UPF?

Foi uma longa história (risos), porque eu comecei dando aula com umas disciplinas na UNISC – Universidade de Santa Cruz do Sul, na Univates – Universidade do Vale do Taquari em Lajeado, depois eu trabalhei na UNOESC – Universidade do Oeste de Santa Catarina em Joaçaba. E quando a Cilene (Potrich) era diretora da FAC, eu estava dando aula na UNISC. Uma colega da UNISC me disse “tu sabes que em Passo Fundo estão chamando pessoas para a tua área?” E aí eu liguei. A Cilene tinha sido minha colega no mestrado da PUCRS. Aí eu disse “Cilene, me falaram que estão pedindo professor na UPF”, e ela disse “sim, mas o pessoal quer para a vaga um profissional com mestrado na área de artes, e eu não te falei nada porque o teu mestrado é na área de educação. Mas manda igual”. Aí eu mandei. Então fizeram uma reunião do colegiado do curso e tal, fizeram uma análise dos currículos e me chamaram. Eu comecei nas disciplinas de desenho, substituindo a professora Roseli (Dolesky Pretto) que estava com problemas de saúde, em agosto de 1999. E também trabalhei nos Campi, primeiro em Palmeira das Missões, depois em Lagoa Vermelha. Eu vim parar (definitivamente) aqui na FAC quando eu apresentei o projeto da pós-graduação em Arteterapia e fechou a primeira turma. Então eu decidi me mudar pra cá (Passo Fundo) justamente para coordenar este curso que já está na terceira edição.

P – E quando você decidiu sair da Argentina para vir ao Brasil?

Isso foi há 20 anos, depois de várias crises econômicas. Saí com 33 anos. Meu irmão estava casado com uma gaúcha e vivia em Porto Alegre. Era uma época de bonança para o Brasil. E na Argentina era uma crise horrível.

P- Você trabalhava como professora na Argentina?

Eu tinha acabado o meu curso. Eu estava trabalhando em outra coisa. Trabalhava com moda. Fabricava roupas naquela época. Eu não costurava, mas eu criava os modelos e lá tem oficinas que trabalham por conta. Então eu ia num lugar com os panos, e nesse lugar eles cortavam, depois eu levava pra outro e eles costuravam, mais tarde levava pra outro que fazia os botões. E eu tinha uma pessoa na minha casa que fazia uma roupa artesanal, outra menina que fazia o tingimento das roupas e outra que passava. Eu e mais uma fazíamos as vendas e as entregas. Eu cuidava mais da parte de produção. Só que comprar o tecido saia MAIS CARO que os preços que estavam nas roupas nos mercados. Para tu ver a crise e a terrível inflação que havia! Então, claro, eu não tinha como me manter, e disse “Não, chega! Não quero fabricar mais nada, só quero vender a minha cabeça agora” (risos)!


P – E daí veio pro Brasil?

Daí meu irmão tava por aqui, vivendo uma fase boa, e eu resolvi vir pra cá. Peguei minha documentação na Argentina e tive um longo processo de revalidação do diploma na UFRGS. Tive que fazer dezessete disciplinas para poder revalidar, porque lá (na Argentina) eu sou formada como “Professora de Escultura para Nível Médio e Superior”... isso não existe aqui! Tu não te formas aqui para nível superior... Certo? Tu te formas aqui na licenciatura para Fundamental e Médio. Então eu tive que fazer as disciplinas de História da Arte Brasileira, de Folclore Brasileiro, das famosas EPB1 (Estudos de Problemas Brasileiros 1) e IPB2 (Estudos de Problemas Brasileiros 2) , que eram tão importante que até caíram do currículo (risos) e tive que fazer um estágio dentro do Ensino Fundamental para poder ter a licenciatura. Fiquei dois anos estudando.

P – E você ainda volta constantemente para a Argentina?

Ah, eu volto a cada dois anos. Tem vezes que vou mais seguido, outras que passo três, quatro anos sem ir... depende da situação.


P – E logo quando você chegou no Brasil, qual foi a primeira diferença cultural que você percebeu?

A comida!


P- A comida? Por que? É pior, ou melhor, ou mais forte?

(risos)... ‘No no’, é porque tudo é diferente. Eu via essas mesas fartas, que tinham várias qualidades de comida, eu achava isso um escândalo! Como as pessoas podiam botar numa mesa cinco ou seis coisas diferentes! Porque nós (os argentinos) somos muito práticos, não tem essa de arroz, feijão, carne, salada, massa, não sei o quê e não sei o quê, que é uma comida comum do brasileiro. Pra nós não, é uma carne com batatas e só! Ou um bife à milanesa com salada, ou uma massa com uma carne e só! Não se come esse monte de coisas!

P – E hoje, morando no Brasil, você come esse “monte de coisas”?

Claaaaro né?!!! (risos) Acho ótimo! Uma das coisas que me interessa muito quando eu viajo é a gastronomia! É algo que me chama muito atenção, eu adoro ir nos mercados para ver o que as pessoas comem! (risos)


P – E é tudo muito diferente, né? Por exemplo, eu gosto muito dos filmes do Nelson Pereira dos Santos. Ele enfatiza coisas do Rio de Janeiro e da Bahia, por exemplo! Fala sobre os negros, o candomblé, o pessoal que mora nos morros cariocas, que adora samba. Isso pra mim é outro país! Eu cresci no meio dos ‘alemão’!

Mas ‘clâro’!

P – Eu me identifico mais com os argentinos do que com os baianos. É mais pertinho! (risos)

Com certeza! Mas é que eles (os baianos) dizem que vocês (gaúchos) são mais parecidos conosco (argentinos) do que com eles! (risos). Uma vez eu estava em São Paulo e um paulista me disse assim: “mas da onde que tu és que tu falas com esse sotaque?!” Eu disse “não, eu sou Argentina mas moro em Porto Alegre”! Ele disse: “ah, mas Porto Alegre não é Brasil, é aquele lance na Argentina, Uruguai, sei lá o quê”!

P – Só falta a gente falar castelhano!

Pois é. (risos) Depois outra coisa que me chamou muito a atenção é não ter um lugar onde tu possas te sentar para bater um papo. Porque nós (os argentinos) somos muito dos cafés, “ah, vamos tomar um café?”... “vamos”, e sentar numa cafeteria, ao ar livre... e eu vejo que está havendo um processo, tanto dos argentinos virem para cá como de brasileiros irem para lá, eu vejo que esse é um processo que está mudando, porque tu podes ver que os cafés, embora dentro dos shoppings, estão aumentando! Porque é uma coisa gostosíssima! Tu sentares com um amigo, tomares um café, falar bobagem... Não, aqui o costume é o bar! “Beber cerveja!” Mas nada impede de tu beberes cerveja num café! Eu não sei se tem a ver com o lugar, porque lá é muito mais frio, dificilmente tu vais beber na rua!

P – Aqui o povo gosta de ir na rua e “encher o latão” de cerveja! O que salva nossos modos é o inverno! No inverno tudo fica tão mais chique... (risos).

É uma questão de clima! O italiano é muito de cafés, o espanhol é muito de cafés e nós temos uma influência muito grande de italianos e espanhóis.

P – Como foi a sua infância na Argentina?

Eu nasci na cidade de Mar Del Prata, que é uma cidade de praia, 400 kilômetros ao sul de Buenos Aires. Quanto mais tu desce mais frio é. É uma cidade bastante fria. Eu estudei numa escola inglesa, porque minha mãe achava fundamental eu conhecer duas línguas. Até tem um ditado que diz que “argentino acha que é inglês” (risos)... argentino acha que é inglês da mesma forma que gaúcho acha que é alemão! (risos) Porque a colonização, a via férrea, assim como aqui duraram muito pouco tempo, lá o trem ficou durante muitos anos. Por mais de cem anos ficou nas mãos dos ingleses! Então por onde eles foram, entendendo a via férrea, eles foram colocando seus colonizadores. Porque os empregados que mandavam eram todos ingleses, os tipos de construções das estações ferroviárias eram inglesas e além do mais a minha bisavó era irlandesa, então eu sou descendentes de irlandeses, bascos e italianos! Eu nasci numa família de classe média, em apartamento. Mas a minha mãe tinha família no campo, então muito seguido nós íamos pra fora, na casa dos tios, é uma família muito grande. Embora eu tenha nascido em apartamento eu não fui dessas crianças que só viram uma vaca e uma galinha pela televisão! (risos) E essa escola era muito legal... Era ruim porque tinha que ir de manhã e de tarde! E nenhuma criança quer estudar em dois turnos! (risos) Porque tem muito menos tempo para brincar! Mas foi muito legal porque abria a cabeça nesse sentido! Era uma escola em que não havia religião, então eu tinha colegas que eram evangélicos, católicos, judeus, e até uma moça que era filha de um agregado da embaixada da Índia. Ele se dedicava a agricultura e morava na cidade, então mandaram ela nessa escola. Eu fiquei amiga dela! Depois que ela voltou para a Índia ficamos nos escrevendo por muito tempo, e a partir dali foi que eu me interessei pelas religiões orientais, entendes? Então me criei numa família católica, mas hoje eu não me considero mais católica. Não sou budista. Mas acho que o importante não é religião, mas sim a espiritualidade, ou seja, não desconsiderar a dimensão humana.


P - Quando a gente começou a entrevista, você disse que era uma pessoa sonhadora!

‘romântica’! (risos)

P – É. “Romântica”... Você tem um sonho que gostaria de realizar em termos de pesquisa?

Olha, eu quero fazer o pós-doutorado. Eu gostaria de fazer fora, mas não sei se vai ser possível, porque como falávamos antes, as condições de trabalho não são as melhores; então não sei se vou conseguir verba, porque não vou ir com o meu salário! Só vou ir se conseguir uma bolsa da CAPES, um apoio da instituição, enfim! Então esse é um sonho que eu tenho e vou realizar. Já tenho até o local, eu gostaria de fazer em Portugal, mas se não der vou fazer dentro do Brasil! Tudo vai depender da situação financeira! Se eu ganhar bolsa faço em Portugal, senão faço em São Paulo (risos)!

P – Você gosta de morar no Brasil ou gostaria de voltar, um dia, à Argentina?

‘No no no’... eu tô muito abrasileirada, porque eu já tenho uma vida profissional e uma vida afetiva aqui. Amigos, marido, essas coisas fazem com que você não sinta saudade, como para voltar! Além do mais eu sou uma pessoa bastante desarraigada, assim como crio raízes, e tô muito bem num lugar durante um tempo, se for preciso sair é claro que eu choro, me despedaço, abraço, faço juras de amor para todos os meus amigos (risos) mas acabo indo! Eu sou muito cigana! Essa cultura (cigana) é muito interessante. Eles dizem que “o importante é estar no caminho! As estrelas vão te guiar, elas são teu lar”, algo assim. Ou seja, sempre pra frente, sempre seguindo teus sonhos!

5 comentários:

Anônimo disse...

Graciela para Deputada!

Anônimo disse...

Graciela para Deputada, mesmo!!! hahahaa
Robes tu ´du ca.....]
Muito bom!!!!!
Parabéns!!
D mais pequena das salientes!!!
tãtãtã

Hericka Zogbi J. Dias disse...

ESSA é a Graciela!! Parabéns pela entrevista, pels iniciativa de indagar essa pessoa tão especial, com um conteúdo intenso e maravilhoso!

Me senti mais pertinho, muito bom!

Lilian disse...

Parabéns pela iniciativa de entrevistar a Graciela. Se bem que sou supeita em falar, porque eu sim, posso dizer que tenho um guru e a "Graciêla" é a minha bruja. Ela comentou que teve que optar entre o assunto de pesquisa e a empatia pelo orientador. Eu, já tive mais sorte, pq o assunto da minha pesquisa era exatamente o que a minha orientadora Graciela pesquisava. E o carinho e a admiração que eu tenho por ela são infidáveis.
O blog tá muito legal. Virei fã... Abraços.

Anônimo disse...

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semelokertes marchimundui