26.2.08

Crônica

O caso do funcionário público

Esses dias fui caminhar na praça em frente ao hospital da cidade, aqui em Passo Fundo. Quando enfim consegui enfiar um tênis nos pés, minha preguiça era tanta que quase descalcei os tênis e voltei a dormir. Mas como a vida ajuda os persistentes, resolvi fazer um cooper.

Levei cinco minutos para chegar na praça. São duas quadras da minha casa até o lugar de caminhar. Quando avistei o “caminhódromo”, que tem vários lugares planejados para as pessoas fazerem exercícios físicos, preferi começar dando uma volta pela praça. Na primeira volta que eu dei, quando passei por um gramado, vi um funcionário sentado, com a vassoura aos seus pés. Mais adiante, um outro funcionário da prefeitura que cortava a grama desligou a máquina e sentou num banco da praça. Puxou uma garrafinha de água, tomou, e levantou a camiseta para cima da barriga. Ficou com a pança de fora e permaneceu sentado bem à vontade naquele banquinho. Pensei: “queridos, descansando do sol”... Depois o da vassoura começou a varrer e o da máquina de cortar grama nem se mexeu.

Eu segui com minha caminhada. Passei uma, duas, três, quatro vezes por aquele lugar, e o homem da máquina de cortar grama permanecia lá, descansando. Então eu resolvi caminhar pelos outros lugares no meio da praça. Passei mais uma meia hora me exercitando. Depois disso, voltei a andar ao redor da praça. 30 minutos depois de eu ter iniciado minha caminhada (e do funcionário da máquina ter sentado) ele permanecia lá, com uma cara de paisagem, debaixo da sombra que escondia o sol de 10 horas de uma manhã de mormaço.

Quando eu estava quase chegando perto do cara de novo, o outro homem, o da vassoura, sentou ao lado do funcionário que cortava a grama. Se encostou com as mãos na vassoura e ficou olhando para o horizonte (no caso o horizonte dava para a fruteira em frente). Ao passar caminhando a mil pelo Brasil pela décima vez, os dois ficaram me olhando, como quem admirasse minha disposição (que ainda assim não dá um quinto da disposição dos atletas de final de semana). Passei. Dali a pouco estava eu de novo na frente dos dois a passos largos. 45 minutos de caminhada! E então eu escutei o fim de uma conversa:

- Pois é, é assim...

- É, pra resolver isso só com um trinta.

Curiosa do jeito que sou, pensei: do que os caras tão falando? Que trinta seria esse? Trinta de “trinta de revólver”? Trinta de “trinta dias para a demissão”? Trinta de “trinta reais”? Ou seria um trinta de “trinta anos de idade”?

Dei mais umas cinco voltas na praça pensando no “trinta”. O que a frase “pra resolver isso só com um trinta” queria dizer? Eu não sabia o início nem o final da conversa, então, também, não poderia deduzir nada...

Dali a pouco o cara da vassoura saiu. O da máquina ficou lá, com a pança de fora e a camisa pendurada quase no pescoço. Quando fechou uma hora de caminhada fui me dirigindo pra casa, não sem antes passar pelo homem da máquina de cortar grama, que depois de uma hora sentado, conservava-se lagarteando na sombra, com a máquina de cortar grama parada ao seu lado. Ele não dava sinais de levantar muito cedo daquele banco.

Fui embora pensando nos trinta e na folga, que é suscetível ao estado de espírito de cada um...

Um comentário:

Tener disse...

Muito bom!!! (quem ser eu pra desferir elogios a tão elegante texto). Há tempos não lia uma crônica assim. Fiquei te querendo mais bem que antes. Parabens e volte logo, não vou mais sair daqui.