16.10.07

Acidentes que fazem pensar

Para meu irmão Tchesco

As últimas semanas têm marcado o Brasil pela quantidade de acidentes graves com vítimas fatais. Um dos maiores e mais tristes foi em Santa Catarina, onde um caminhão bateu de frente num ônibus cheio de passageiros. O pior veio depois: enquanto muitas pessoas ajudavam a salvar as vidas na pista, um segundo caminhão, aparentemente desgovernado e sem freios, invadiu a pista e rumou para cima das dezenas de pessoas que trabalhavam no local. Muitas delas morreram.

É nessas grandes tragédias que, na minha opinião, a gente pára pra pensar na vida. As pessoas se deparam com a vulnerabilidade do que significa “viver”. A linha é muito tênue entre o viver e o morrer.

O que acontece é que as pessoas passam todos os seus dias preocupados com a saliência dos colegas no trabalho, com o dinheiro que sempre acaba no dia 15 do mês e ainda faltam mais 15 dias para terminar o tal mês, permanecem preocupados com a casa que está empoeirada e com o sofá rasgado, com as roupas que já estão velhas e batidas, com o carro que acaba a bateria e ninguém descobre o problema; e assim vai. Aí durante à noite as pessoas sentam para relaxar em frente à TV e passam a almejar a “beleza estética e material” da vida que passa na televisão.

E, assim, a criatura se esquece de olhar para trás, ou seja, para tudo o que ela já conquistou. Esquece de pensar que tem cama pra dormir, comida pra comer, trabalho para se sustentar... E estes fundamentos são matéria-prima para uma passagem na terra de modo sossegado. No dia-a-dia as pessoas também se esquecem de que na verdade elas são corpo e mente. Espírito e matéria. E para que isto se sustente, a serenidade é extremamente importante, aliada às nossas relações de afeto. Explico.

Quando aconteceu o tal acidente em Santa Catarina, fiquei sabendo no outro dia. Liguei a televisão e quase chorei com o depoimento das pessoas. Permaneci chocada com tudo aquilo. No mesmo dia fui viajar, já com aquele aperto no coração. Só dois dias depois fiquei sabendo que um dos meus grandes e fiéis amigos quase tinha sido uma das vítimas do acidente. Só aí que, efetivamente, a minha casa caiu. Dei-me conta do quanto as pessoas são importantes na vida de outras pessoas. E quando um acontecimento destes nos afeta diretamente, damos muito mais valor à vida e aos familiares e amigos.

Meu amigo é Franscesco Silva, repórter da RBS TV de Chapecó. Ele e seu colega Evandro Troian, repórter cinematográfico, estavam indo cobrir o acidente. Foram conversando, como dois grandes amigos. Lá no local, trabalharam e ajudaram a resgatar as vítimas. Ao final de uma entrevista que Franscesco e Evandro realizavam, o Franscesco viu o caminhão desgovernado que vinha na direção deles. Ele só teve tempo de se atirar para o lado. Sentiu, há menos de um metro, o caminhão passando furiosamente. E, quando o caminhão passou por ele, teve o microfone arrancado de sua mão. O destino do amigo e colega Evandro não foi o mesmo. Ele foi arrastado pelo caminhão e morreu na hora.

É nessas horas que eu fico pensando sobre a brevidade da nossa vida. “Basta estar vivo para morrer”, como as pessoas dizem por aí. E também basta estar vivo para extraordinariamente continuar a viver, como um novo respiro que é oportunizado por Deus. Como meu amigo disse: “Agora tenho duas datas de aniversário”. E é nessas horas também que a gente se dá conta de que o mais admirável na vida não é ter grana, status ou um trabalho chique. O importante é ter com quem contar, é ter com quem conversar, é ter quem amar. O formidável pra mim, como lição de vida neste acidente, é saber que as pessoas têm um valor inestimável na vida de outras pessoas, como o Franscesco tem valor na minha vida (às vezes é preciso acontecer uma coisa triste para que as pessoas encontrem tempo para saírem de seus cotidianos corridos e pararem para pensar, para se falar e para se abraçar).

O segredo da vida é aprender que algumas coisas com as quais as pessoas se empenham têm pouco valor, ou quase nenhum quando a “brevidade da vida” se apresenta. Nessas horas o que vale mesmo é ter a consciência de que a vida física é passageira. E precisamos dar muito mais atenção às nossas atitudes enquanto seres humanos serenos do que enquanto consumidores de utensílios perecíveis da vida.

7 comentários:

Colméia disse...

Devemos sempre dar valor as pessoas que fazem parte de nosso dia-a-dia e às vezes, nem nos damos conta da importância delas, ou do que sentimos por elas. Eu, que perdi uma colega em acidente de moto no início da faculdade, senti a falta daquela amiga que sentava sempre na minha frente, e foi quase impossível continuar na mesma turma, sabendo que um de nós não poderia se formar porque não estava mais lá. Desde então aprendi a dar valor às pessoas que gostamos e dividimos nossa rotina, pois elas podem não estar presente amanhã.

Janaína disse...

"É nessas horas que eu fico pensando sobre a brevidade da nossa vida. “Basta estar vivo para morrer”, como as pessoas dizem por aí. E também basta estar vivo para extraordinariamente continuar a viver, como um novo respiro que é oportunizado por Deus.".

Gostei desta parte.
É um jeito diferente de ver nossa vida tão breve.
Que Deus nos acompanhe.
Ele deve saber o que está fazendo.

Bibiana Friderichs disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bibiana Friderichs disse...

Todas essas coisas acontecem o tempo todo em todos os lugares. Quando penso nas estatísticas, denunciando que tantas crianças morrem no mundo, por minuto, em consequencia da desnutrição, e que tantos homens e mulheres morrem no mundo, por segundo, em acidentes aéreos, e que tantos e tantos outros morrem de acidentes de trânsito, nos preocupamos. Ficamos assombrados com as estatísticas, tão plásticamente embaladas, pelos templates e pelos caractéres, no meio do Jornal Nacional. Mas no fundo, no fundo, para nós, não passam de estatísticas. Trata-se de um abalo momentâneo, que pode durar até alguns dias, só que passa, pois é uma experiência mediada pelo experiência do outro, pela narrativa jornalística e pelos ecos da coletividade. Agora, quando alguém muito próximo precisa ligar para te dizer: estou vivo!, nos damos conta da nossa impermanência... grande robes, tu como sempre é grande, porque consegue admitir isso, escrever sobre isso. Mais ainda consegue fazer isso de um modo muito sincero e aberto. beijos.

Bibiana Friderichs disse...

Robes, já ouviu falar da teoria dos memes? Bom, baseado nesta idéia o pessoalzinho me passou um "meme literário". Entra lá no meu blog, vê como é e participa. Te coloquei na minha lista oficial do meme... hehehe. Beijos

Tchesco disse...

Tínhamos combinado que ele faria uma janta com a tal “feijoada diet” um final de semana destes. Tínhamos combinado acampar um final de semana destes, por que ambos gostávamos destas coisas rústicas e simples da vida. Promessas e planos que jamais serão concluídos. Tudo por que a vida é tão inevitável quanto a morte. Como sempre, só nos damos conta quando nos aproximamos dela. Certa vez alguém disse: -Cara! Se liga! Merda acontece!!!. E merda aconteceu quando menos imaginávamos. Em uma noite corriqueira um parou e outro continuou. Estranho por que hoje sinto vontade de conversar com ele sobre essas coisas da vida, e não posso mais, nunca mais. Hoje penso que não vivemos direto. Que não aproveitamos os momentos como deveríamos. Que vivemos muitas vezes do futuro, mas esquecemos que ele pode nunca chegar, pra gente e para os outros!!! A vida é uma caixinha de surpresas...boas e ruins...Esteja preparado pra ela, se puder!!!

Roberta Scheibe disse...

Grande Tchesco..... é verdade. Eu vivo com a cabeça no futuro (que é incerto)... tá na hora de realmente viver o presente... só que as pessoas nem se dão conta disso.... e muitas vezes nem a gente!