2.4.07

A festa das coisas em cima do ralo

A maçaneta foi girada. Aquele barulho de porta nova soa como uma bolacha caindo ao chão. Entra. Fecha a porta. A chave gira, também, numa algazarra gostosa de coisa nova. Como o som de uma colher quando é segurada na ponta dos dedos e batida de leve contra uma madeira.

Roupas, descarga, água.

Os fios de água caem alinhados,

lineares,

milhares.

Retos até encostarem-se ao corpo. E então os milhares de fios se transformam em duas grossas vertentes. Uma para cada parte do corpo.

O cabelo reparte-se ao meio. Os olhos são fechados. A água cai forte, misturando-se com lágrimas ou, talvez, suor. Queixo tremendo, mãos tremendo. O sabonete rosa começa a ser passado pelo corpo. Rosto, mãos, braços, barriga... Tudo ao redor começa a ficar embaçado. Depilação, xampu, condicionador. As mãos lentamente massageiam o cabelo como se fossem afagar um filho. De leve. Devagar. Às vezes por obrigação? Nem cansada.

O ralo é a parte mais significativa. Os olhos são hipnotizados por ele. Ele. Ele. Ele. O ralo. Não um. Mas “o”. “O ralo”. E ele permanece ali, em alguns lugares com cabelos. Neste, nunca. E toda a água que sai de cima começa a procurar o ralo. Como se fosse um ímã, um estigma, o curso de um rio. Com voltas, devaneios, histórias. E os contos encantados, as fantasias, as narrativas começam a correr com a água. Você olha o ralo como se um gato olhasse você.

As têmporas da cabeça são apertadas com força, para que a dor passe. Para que a insônia, a tristeza, as incertezas sejam suportadas. A água abanca lisa como óleo. E o sabonete se gruda no corpo como se fosse fumaça.

A água é desligada. A toalha é puxada. O barulho vem como um baralho de cartas sendo manuseado. Vrrrrrrrrr. É posta nas costas. Desliza aos poucos...

A água do cabelo escorre no rosto,

nos ombros,

nas pernas.

Um pingo solitário passeia pela testa, passa pelo meio dos olhos e tem seu passo derradeiro no topo do nariz. E desce alforriada para tudo o que parece extinto. O pingo da liberdade, do descanso, do olhar tranqüilo e cansado. O pingo da redenção.

A luz amarela faz uma fotografia embrenhada na umidade. Pega os desprevenidos de lado. Os poros aparecem. O ar toma forma. Um universo secreto se forma naquele lugar, único de cada um. Os azulejos, também amarelos, porém adornados de flores azuis (um presente de Portugal), permanecem embaçados. Aos poucos, a umidade também começa a dizer adeus e se desprender das paredes.

E corre,

escorre,

sofre.

Cruza muralhas até desaparecer, deixando as flores azuis sozinhas. A luz é apagada. Os pés perdem a forma. O cabelo gela a nuca. A porta é destrancada. Tsct. O trinco é aberto. E de novo é fechado. Tmmm. Tmmm. Paredes, toalhas, vaso, torneira, água, chuveiro, sabonete, xampu, condicionador, gilete, cremes, revistas, escovas, panos, chinelos, roupas. Todos tomam feitio e vida. A festa silenciosa das coisas inicia. Todos falam. Todos sabem. Todos sentem. Mesmo que for alegria ou pena.

Descobre-se muito sobre o sofrimento alheio na hora do banho.

3 comentários:

Anônimo disse...

de fato!

Bibiana

Deny Pacassa disse...

muitooo legall Robes...

..a idéia que dá, é a de que tu tomou um puta banho, num dia ñ muito bom p ti e conseguiu perceber no ato comum diario, algo a mais...e se permitiu escrever...

acho isso muitoo tri...afinal todos nós temos esses dias...e eu sempre faço isso em dias tristes (que tenho muitosss): observar essas coisas simples, e ver nos atos mais comuns poesia...musica...palavras...histórias...

o problema é que nunca me permito escrever...hehehe
quem sabe ñ crio coragem né? parece bobo as vezes, mas na real toca as pessas sensiveis que conseguem perceber o que ha por tras disso tudo...

hehehehe
...desculpa se escrevi muita besteira...mas é que li e me identifiquei muito..dae tive k comentar...

adorei...

bjinhuxxx Robes

Amanda disse...

Adorei... nem digo mais.